HERI  FORA
Artur de   Azevedo

HERI  FORA

PERA CMICA EM TRS ATOS.
ADAPTADO  CENA BRASILEIRA.
MSICA DE ABDON MILANS

1886

PERSONAGENS / ATORES

LUISINHA / Dona ROSA VILUOT
VALENTIM BRAGA, latoeiro - gmeo de
JORGE BRAGA, capito / Senhor VASQUES
GREGRIO, sargento / Senhor AREIAS
MATIAS DE ALBUQUERQUE, Governador
de Pernambuco / Senhor LISBOA
PANTALEO DE ARAGO, capito de navio / Senhor PINTO
VICENTE / Senhor MESQUITA
UM AJUDANTE DE ORDENS / Senhor NINO
UM SOLDADO / Senhor CESAR
OUTRO / Senhor DIAS
UM REPOSTEIRO / Senhor MACHADO
UM CAPELAO / Senhor MACHADO
UMA NOIVA / N. N.
Latoeiros: mulheres, crianas, oficiais, soldados, banda marcial,
convidados de ambos os sexos.

A ao passa-se em Pernambuco, no sculo XVII, durante a guerra dos
holandeses; o primeiro ato no Recife, o segundo em Jaboato, e o
terceiro em Olinda, no palcio do Governador Matias de Albuquerque.

Ensaiador, Senhor Jacinto Heller; regente de orquestra Senhor Henrique
de Mesquita; cengrafo, Senhor Carrancini.

AO PROVECTO ATOR

ANTNIO JOS AREIAS

Aceitando a dedicatria desta pea, a que tu, o grande Vasques, e outros
colegas teus, muito distintos, ides, sem dvida alguma, dar um magistral
desempenho -, d-me licena para contar-te ligeiramente a histria do
Heri  fora, e p-la nestas pginas  laia de advertncia.

H seis anos chegou a esta Corte, vindo de Portugal, e foi fazer parte
da Companhia Heller, que ento funcionava na Fnix Dramtica, um ator,
teu compatriota, cujo nome no preciso aqui citar.

Poucos dias depois de entrar para a Fnix, esse ator veio ter comigo e
disse-me:

- Tenho em meu poder uma comdia por mim representada centenas de vezes
em Portugal, e sempre com muito agrado. Mas infelizmente  uma pea sem
msica; no pertence ao gnero adotado pelo Senhor Heller. Desejo que me
transforme essa comdia numa opereta, fazendo-a pr em msica por um
compositor de talento. S assim poder ser representada na Fnix.

No dia seguinte, entregou-me um manuscrito, cuja primeira pgina rezava
assim: "O Heri  fora, comdia de espetculo em 3 atos, imitao por
A. de Menezes."

Imediatamente procedi  leitura, e reconheci que outra coisa no podia
ser essa comdia seno Le Brasseur de Pres ton, velha pera-cmica
francesa, que eu apenas conhecia de tradio. O imitador tirara-lhe todo
o canto.  singular que, sem esse atrativo, embora bem representada, a
pea lograsse tanto xito em Portugal. Imagina um libretto de
pera-cmica... sem msica!

Debalde procurei ento por toda parte um exemplar de Le Brasseur de
Preston. Afinal, resolvi extrair a opereta da prpria comdia
manuscrita. Feito esse trabalho, incumbi de p-lo em msica o Senhor
Federico Guzmn, distinto pianista e compositor chileno que se achava
ento de passagem nesta Corte. Infelizmente o trabalho do maestro no
agradou ao empresrio, o que no quer dizer que me desagradasse a mim, e
o Senhor Guzmn levou consigo a partitura, quando se retirou, em 1882;
para a Europa, onde faleceu h pouco mais de um ano.

Entretanto, o ator a que acima me referi, retirando-se da Fnix,
esquecido do que convencionara comigo, representou no Politeama
Fluminense (e sem me dizer palavra) a comdia tal qual fora arranjada
pelo Senhor A. de Menezes.

Pouco depois desse ato, que eu no qualificarei, o artista repatriou-se,
e nunca mais ouvi falar dele.

Em 1883 o meu amigo Senhor Abdon Milans, que hoje todo o pblico
fluminense conhece e aprecia, pediu-me um libretto para pr em msica.
Lembrei-me do Heri  fora, e em boa hora, porque o jovem maestro
saiu-se admiravelmente; refiz o meu trabalho, e desta vez em presena do
prprio original, que finalmente obtive. No fiz propriamente uma
traduo, mas uma "adaptao  cena brasileira". Transportei para
Pernambuco, um pouco a trouxe-mouxe, confesso, a ao da comdia, e
dei-lhe por poca o Sculo XVII, que se prestava perfeitamente  trama
do libretto. Introduzi no terceiro ato um personagem histrico, ousadia
que, espero, me ser desculpada, porque, em casos anlogos, outros o tm
feito antes de mim, e com menos verossimilhana. Conservei o titulo de
Heri  fora; certamente os meus escrpulos se oporiam a isso, se eu
no tivesse notcia, pelo referido Guzmn, de que havia com o mesmo
ttulo uma traduo espanhola da mesma pea. Alm disso, Heri  fora
era um titulo que se impunha a este trabalho; a uma criana no
ocorreria outro, e a mim me admira que os autores franceses no o
houvessem aproveitado.

Tudo isto escrevo, meu Areias, para deixar aqui bem patente que este
trabalho  uma adaptao de Le Brasseur de Preston, pera-cmica em trs
atos, dos Senhores de Leuven e Brunswich, posta em msica por Adolphe
Adam, e representada pela primeira vez em Paris, no Teatro da
pera-cmica, em 31 de outubro de 1838; nada aproveitei do Heri  fora
que h tempos foi exibido, uma ou duas vezes no Politeama Fluminense,
por um simulacro de companhia dramtica.

Um aperto de mo do amigo agradecido e admirador sincero,

Artur Azevedo

Rio de Janeiro, setembro de 1886.

ATO PRIMEIRO

Interior de uma oficina de latoeiro. Por toda parte artefatos de
folha-de-flandres. Bancos. Porta  esquerda. Porto ao fundo, com
sineta. Esse porto diz para um ptio.

CENA I

VICENTE, que entra da esquerda e vai tanger a sineta; os LATOEIROS, que
entram do fundo, em confuso; depois VALENTIM.

Coro dos latoeiros

Ao som da sineta
Corramos depressa!
So horas! Comea
Nossa obrigao!
De folha-de-flandres
Mil coisas faamos,
E aos anjos peamos
Que as venda o patro.
No fim das semanas
As frias no falham,
Pois aos que trabalham
Protege o Senhor.
Portanto, rapazes,
V l! Mos  obra!
V l! que nos sobra
Vontade e vigor!

VICENTE - Vocs tm razo.

CORO - Bons dias!

VICENTE - Rapazes, razo lhes dou...

Deus fez o mundo em seis dias,
No stimo descansou;
Portanto, a Deus imitemos:
A semana trabalhemos
E ao domingo descansemos!
Descanse quem trabalhou.

CORO

- No apoiado! 
Qual descansar! 
Fez-se o domingo Para bailar,  
Folgar,
Brincar!
No fim das semanas, etc.

(Dispem-se todos para trabalhar; VALENTIM entra da esquerda.)

VALENTIM - 

Alto l! Alto l!...
Hoje aqui ningum trabalha 
Em casa de Valentim!

CORO - 

Como assim?
Diga l!

VALENTIM (Trazendo por um gesto todos ao proscnio.)

Coplas

I

Um grandioso, audaz projeto 
Eu concebi;
Por isso vai hoje sueto 
Haver aqui.
Para vs todos prontamente 
Ver folgazes,
Eu vou distribuir contente 
Uns pataces!

(Distribuindo moedas de prata de um saco que traz na mo.)

CORO

Aqui est! 
Tomem l
Pataces!...

CORO

- Venham l, 
Venham j
Pataces!...

II

VALENTIM - 

Qual o projeto, s mais tarde
Ho de saber;
Aquele que em desejos arde
De o conhecer
Pode dar tratos ao bestunto.
No  capaz
De adivinhar que grande assunto
Aqui me traz!
Aqui est, etc...

CORO - Venham l, etc...

VICENTE - 

Patro querido,
Vossa Merc
Esse projeto
Diga qual .

CORO - Diga qual !

VALENTIM - 

Vo vestir os seus fatos domingueiros,
E voltem prazenteiros,
Trazendo cada qual sua mulher.

VICENTE - Manda o patro!  obedecer!

CORO

-  obedecer!  obedecer! 
No fim das semanas, etc...

(Saem os latoeiros pelo fundo.)

CENA II

VALENTIM, VICENTE

VICENTE - Mas diga-me c, patro. Qual  o motivo de tanta alegria?
Dar-se- caso que Vossa Merc tenha recebido alguma herana?

VALENTIM - E que te importa? Come como um frade, bebe como um holands,
dana como um ndio, ri como um doido, e no queiras saber mais nada.

VICENTE - Qual no queiras, nem qual carapua! No se me dava saber por
que a gente vai ser obrigada a andar hoje de cara alegre!

VALENTIM - Vais saber...  que... Nada! s um tagarela, podes dar com a
lngua nos dentes. A seu tempo tudo sabers. Olha, vai  taverna do
Leonardo, ali no Corpo Santo, e diz-lhe que mande a vinhaa a tempo. O
jantar  s trs em ponto.

VICENTE - E so muitos os convidados?

VALE NTIM - Os rapazes, as mulheres... ho de ser para ai quarenta
pessoas... Quarenta e uma! Sim, porque tambm h de vir meu irmo
Jorge... Escrevi-lhe anteontem  tardinha. H que tempos o no vejo! Que
queres? Um oficial no pode deixar o seu posto, principalmente em tempo
de guerra! Agora, que est to perto daqui, talvez possa arranjar uma
licena, e vir jantar com a gente. Malditos holandeses! Tm-nos dado
gua pela barba!

VICENTE -  certo que Vossa Merc parece-se tanto com seu irmo, que at
se confundem?

VALENTIM - Homem, eu mesmo no sei se sou eu que me pareo com ele, ou 
ele que se parece comigo. O que te afiano  que somos o retrato um do
outro, e isso no admira, porque somos gmeos. (Outro tom.) Mas, vamos!
Vai, faze o que te disse, e no ds  lngua, se queres dar aos dentes!

VICENTE - C vou, patro, c vou. (Saindo pelo fundo.)

CENA III

VALENTIM - Sempre quero ver a cara que faro quando souberem! Tambm no
disse nada  Luisinha... Como ficou admirada, fitando-me com os seus
formosos olhos negros e rasgados, quando lhe pedi que deixasse a
costura, dizendo-lhe que hoje era dia de festa na oficina... que seria
conveniente vestir o seu melhor vestido e adornar-se com os seus
melhores enfeites... e, se alguma coisa faltasse, que a mandasse buscar
ao melhor mascate de Olinda. Pobre pequena! Ficou to atnita, que nem
sequer se atreveu a perguntar-me... (Luisinha entra da esquerda.) Ela a
vem! Como  bonita! Benza-a Deus!

CENA IV

VALENTIM, LUISINHA

LUISINHA - Ah! estava a, Senhor Valentim? Diga-me: estou a seu gosto?

VALENTIM - Ests, meu anjo! Aproxima-te; quero ver-te mais de perto.
Como s linda!

LUISINHA - Ora...

VALENTIM - Mas quem te deu esta fatiota? Nunca te vi to bem vestida!

LUISINHA - Faa-se de novas! Julga que no o vejo todos os domingos,
quando Vossa Merc vai p ante p deitar-me no cesto da costura um
dobro de ouro, e em seguida foge, como se praticasse um grave delito?

VALENTIM - Pois sim, pois sim, no falemos mais nisso...

LUISINHA - Pelo contrrio, falemos.  preciso pr cobro a semelhante
procedimento. Estou envergonhada de tantos benefcios, visto nada ter
feito por merec-los. A Vossa Merc devo eu este luxo... Sou aqui
tratada como uma fidalga.

VALENTIM - Ora, qual! Isso no vale nada... Eu  que sou um ingrato...
Se fosse a pagar, como devia, os benefcios que recebi do teu bom pai,
que Deus haja!...

LUISINHA - Meu pai cumpria as suas obrigaes. Era o mestre da oficina.
Esforava-se por bem servir ao seu amo.

VALENTIM - Teu pai era alguma coisa mais do que o mestre da funilaria:
era um amigo, um verdadeiro amigo. Se aos trinta anos de idade estou
senhor deste estabelecimento e quase rico, a quem devo? A ele,  sua
atividade,  sua indstria e, sobretudo, aos seus conselhos. Ps-se 
testa da oficina, e por tal forma a acreditou, que hoje est no p de
prosperidade em que a vemos! E no havia eu de me interessar por ti, que
ficaste rf aos treze anos, desamparada neste mundo, sem outros bens
que no fossem a tua virtude, a tua inocncia e esse rosto de fada,
capaz de causar inveja aos prprios anjos do cu?! Vamos l! Disse e
repito: Fui ingrato!

LUISINHA - Exagera...

VALENTIM - No falemos mais nisto, seno entro a comover-me, e hoje no
 dia para tristezas... Anda c, Luisinha; no adivinhaste ainda a causa
destes preparativos de festa?

LUISINHA - No... ningum faz anos hoje...

VALENTIM - Pois ouve l. Sabes que pela Pscoa completei trinta anos?
Comeo a enfastiar-me de estar solteiro. Quando do avemarias, e despeo
os oficiais, fico em completa solido. Entro a passear pelo meu quarto,
da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, com as mos nas
algibeiras, perguntando a mim mesmo por que no me hei de eu rodear de
meia dzia de rapazes que corram, gritem, saltem, besuntando-me o fato,
beliscando-me a barriga das pernas, divertindo-me, enfim!

LUISINHA - Pensou em casar?

VALENTIM - Rapazes... no  difcil arranj-los... O busilis est em
deitar a mo numa mulherzinha bonita, amvel e ajuizada... (Luisinha
baixa os olhos.) Mas como o casamento  uma espcie de jogo da
cabra-cega, o melhor  a gente confiar-se  sorte; fechar os olhos e
agarrar uma. Foi o que fiz, e quer me parecer que encontrei o que
desejava.

LUISINHA (Contente.) - Encontrou?

VALENTIM - Encontrei. (Pausa.) Um pouco longe daqui...

LUISINHA (Despeitada.) - Ah!

VALENTIM - Uma guapa rapariga... boa... amvel... discreta...

LUISINHA (Esforando-se por disfarar a perturbao.) - Ser bom...
Senhor Valentim... no se fiar muito nas aparncias...

VALENTIM - Descansa. Trata-se da filha do Barbalho, o proprietrio
daquela quinta de Apipucos que fornece capim para o nosso macho.

LUISINHA - No conheo.

VALENTIM - Olha, aqui tens tu a carta do Barbalho (Tira um papel do
bolso e finge que l.) "Meu amigo. Em resposta  sua carta de dezesseis,
participo-lhe que amanh..." (Declamando.)  hoje. (Continuando.) ...
que amanh, dia de remessa de capim aos meus fregueses da cidade,
remeto-lhe minha filha e trs feixes do dito, da melhor qualidade.
Espero que tudo chegue fresco e sem avaria. De seu amigo - Barbalho".
(Declamando e guardando a carta.) Como vs. a minha noiva chega hoje
mesmo. Quero receb-la com todos os ff e rr. Fars favor, Luisinha, de
cuidar em que nada falte. Eu vou sair; tenho ainda que dar algumas
voltas. (Pega no chapu.) Dize-me c: no gostaste de saber que me caso?

LUISINHA (Com um esforo supremo.) - Eu... sim... gostei...

VALENTIM - Muito bem! At logo, Luisinha, at logo... no me demoro.
(Sai pelo fundo.)

CENA V

LUISINHA

LUISINHA (Mal se v s, rebentam-lhe as lgrimas e os soluos, e cai num
banco, chorando abundantemente. Pausa.) - E eu, que me levantei to
alegre esta manh! Bem longe estava de pensar que... Quem tal diria?
Pobre de mim!

Romana

Chora a minha alma sentida,
Padece o meu corao!
Vejo pra sempre perdida
A minha doce iluso! (Erguendo-se.)
Oh! que destino brbaro!
Que desgraada sorte!
A vida ser-me- dspota,
Benevolente a morte!
Louca esperana, prfida,
Em fumo se desfez...
Do pranto meu as prolas
Deslizem-me no rosto!
Mas, ah! no sanam lgrimas
O meu fatal desgosto:
Sossego s no tmulo
Hei de encontrar talvez!

Chora a minha alma sentida,
Padece o meu corao!
Vejo pra sempre perdida
A minha doce iluso!

CENA VI

LUISINHA, VICENTE

VICENTE (Entrando do fundo.) - Est tudo pronto, no falta nada! Ora
muito bons dias tenha a menina Luisinha. Oh! mas, ou eu sou cego, ou a
menina esteve a chorar!

LUISINHA - Eu? Engana-se!

VICENTE - Qual engana-se, nem qual carapua! Diga-me: quem lhe fez mal?
Diga-me quem foi, e ver como o arraso!

LUISINHA - Sossegue.. Tratemos antes de combinar o modo por que havemos
de receber a noiva do Senhor Valentim.

VICENTE - A noiva do Senhor Valentim? Pois o patro casa-se?

LUISINHA -  verdade, Vicente.

VICENTE - Pois o patro casa-se, e no  com a menina?

LUISINHA - Comigo? Que est dizendo, Vicente? Pois eu sou l digna de
seu patro? Eu?! Sem famlia...

VICENTE - Qual famlia, nem qual carapua! O patro faz um grande
disparate! Eu digo-lho, digo-lho nas bochechas! Quantas vezes, c na
oficina, temos dito uns para os outros: o patro faz muito mal em no se
casar com a menina Luisinha!

LUISINHA - Que queres tu? Ele no me ama.

VICENTE - Qual no ama, nem qual carapua! Ama sim, senhora! Tinha que
ver se a no amasse! Todos aqui a amam. E, seno, olhe... a vm os
rapazes... Pergunte-lhes.

CENA VII

OS MESMOS, os LATOEIROS, de brao dado a suas MULHERES, algumas das
quais trazem CRIANAS pela mo; depois VALENTIM. Esto todos em trajos
de festa.

Coro

Trazemos o riso nos lbios, 
Trazemos alegres semblantes;
Roupas galantes 
De ver a Deus!
Pois em domingo alegre o sbado 
Quer o patro que se transforme!
Isto  conforme 
Fazem judeus.
A razo do jbilo
Aqui ningum v! (Com um movimento de dana.)
Danamos, cantamos,
Saltamos, bricamos.
Sem saber por qu! (Danam.)

VICENTE - 

Assim, rapazes, assim!
Quer o Senhor Valentim
Completa satisfao!

TODOS - Viva o patro!

VALENTIM (Que tem entrado.)

Saibam, amigos meus: todos estes mistrios
So porque vou entrar
No rol dos homens srios!

TODOS - Vai casar! vai casar!...

VICENTE - 

Qual  a noiva?
No nos dir?

TODOS - 

Qual  a noiva?
Diga-nos j!

VALENTIM - 

A bela esposa minha
Outra no pode ser, seno...

TODOS (Ansiosos.)  - Quem?!

VALENTIM - Luisinha!

TODOS - Luisinha!

LUISINHA -

Oh! que ventura suprema!
E a outra, de quem falou?

VALENTIM - 

Foi um belo estratagema,
Que um belo efeito causou. 

(Sinais de alegria em todos.)

Concertante

LUISINHA -

Oh!. que ventura!
Que felicidade!
Sou, na verdade,
Ditosa enfim!
Vou, finalmente,
Viver folgado,
Passar ao lado
De Valentim!

VALENTIM - 

Oh! que ventura!
Que felicidade!
Sou, na verdade,
Ditoso enfim!
Vou felizmente
Viver folgado,
Passar ao lado
De um serafim!

VICENTE E CORO -

Que felicidade!
, na verdade,
Ditosa enfim!
Vai felizmente
Viver folgado,
Passar ao lado 
De um querubim

VALENTIM - 

Enquanto esperamos o instante, que aspiro,
De nos fazermos  matriz, 
Vo pela quinta dar um giro.

TODOS - 

Muito bem diz!
A razo do jbilo
Aqui j se v!

(Vicente e os coros saem com um movimento de dana.)

Danamos, cantamos, 
Saltamos, brincamos, 
Sabendo por qu!

CENA VIII

LUISINHA, VALENTIM

LUISINHA - Fizeste-me sofrer horrores durante dez minutos!

VALENTIM - Foi uma experincia.

LUISINRA - Mau! E aquela carta?

VALENTIM - Aquela carta? (Tirando-a.) V!

LUISINHA - O rol da roupa. (Deita-o fora.)

VALENTIM - E o Barbalho nunca teve filhos.

LUISINHA - Que prazer egosta o de amargurar os outros!

VALENTIM - Coitada! Ainda no tinha eu dado dez passos, e rebentavam-te
as lgrimas.  abenoadas lgrimas!! (Beija-lhe os olhos.)

LUISINHA - Parece-me isto um sonho! Dize-me outra vez que vou ser tua
esposa!

VALENTIM - Dentro de uma hora iremos  matriz. A papelada est pronta.

LUISINHA - Mas por que tanto mistrio?

VALENTIM - O segredo  o tempero mais saboroso deste, acepipe que se
chama amor. Amar-nos-emos sempre, no  assim?

LUISINHA - Sempre.

VALENTIM - A minha satisfao seria mais completa se pudesse ter a meu
lado meu irmo Jorge...

LUISINHA - Tenho tanta vontade de o conhecer...

VALENTIM - Convidei-o, mas no sei se poder deixar o exrcito. O pobre
rapaz tem andado numa dobadoura! Veio da Paraba por terra, por uns
caminhos impossveis, e no teve tempo ainda de aparecer no Recife. E
at certo ponto  bom que no aparea.

LUISINHA - Por qu!

VALENTIM - Por qu? Pois no tenho j contado quantas me sucederam em
rapaz, pela maldita casualidade de nos parecermos tanto um com o outro?
Eu era uma pombinha sem fel, e bastante medroso, molstia de que ainda
hoje padeo... Em vendo qualquer perigo, logo me d vontade de fugir!
Meu irmo era o contrrio: bulhento, endiabrado, provocador! Toda a
vizinhana tinha-me raiva. Cortava as orelhas ao co de Fulano...
pintava de verde o gato de Beltrano. Queixavam-se a minha me: Jorge
dizia que tinha sido eu; os queixosos confirmavam, e o resultado era uma
tunda!

LUISINHA - Pobre Valentim!

VALENTIM - Quando ficamos taludos, as diabruras eram de outra espcie.
Quantas vezes Jorge se aproveitou da nossa semelhana para ir em meu
lugar a certas entrevistas; quantas!

LUISINHA - Mas que tem isso para no quereres que ele venha?

VALENTIM - Que tem isso? Nada!  uma brincadeira! Meu irmo ainda  o
mesmo: valente, honrado, diga-se a verdade, mas tambm galanteador,
sedutor e... E se quiser divertir-se  minha custa...

LUISINHA - Ora cala-te! no digas heresias!

VALENTIM -  que talvez no nos diferenasses!

LUISINHA - Acreditas que o meu corao possa enganar-se?

VALENTIM - Por que no? Fazes l idia como nos parecemos! A mesma
estatura, a mesma cara, a mesma voz!

LUISINHA - J comeo tambm a ter cuidados!

VALENTIM - Se te estou a dizer que o caso  srio! Ainda se os
holandeses o fizessem coxo ou maneta...

LUISINHA - Deus o livre, coitado!

VALENTIM - Tens razo, Deus o livre! Ah! espera! Se ele vier, podemos
adotar este meio: Quando eu for eu... quero dizer: quando ele for ele...
sim, quando eu no for ele... isto ... eu me explico. Quando for eu,
Valentim, teu marido, que se aproxime de ti, direi qualquer coisa... Ego
sum qui sum,  por exemplo -, mesmo em latim, no faz mal... E dou-te um
beijo. Deste modo, conheces-me logo e evitas algum troca.

LUISINHA - Est dito.

VALENTIM - Mas toma cuidado, que se eu me aproximar e no disser nada, 
que no sou eu... e ento, pelo amor de Deus!

LUISINHA - Cala-te, deixa-te de tolices!

Dueto

VALENTIM - Vamos fazer um ensaio?

LUISINHA - Um ensaio? Vamos l!

VALENTIM - Eu primeiramente saio...

LUISINHA - Ficarei sozinha c.

VALENTIM - Ao voltar, tu me recebes
Conforme o que eu c fizer.

LUISINHA - Eu j estou pronta.

VALENTIM - Percebes?

LUISINHA - Muito bem.

VALENTIM -  o que se quer.

(Sada falsa pelo fundo.)

LUISINHA (S.) - Espera l! Vou te fazer 
Enraivecer!

(Valentim entra gravemente e faz uma mesura cerimoniosa a Luisinha, que
se lhe lana nos braos, com mpeto amoroso.)

LUISINHA - 

Valentim querido,
Aos meus braos vem!
Aos meus braos vem!
s o meu marido,
E eu te quero bem! 

VALENTIM (Desesperado.)

- Ento? Ento?!
Assim recebes meu irmo?
Eu no te havia dito nada...

LUISINHA - 

 que fiquei atrapalhada
E no prestei muita ateno...

JUNTOS - 

-  perigoso
- Pudera no!
Ter/Ser um marido
To parecido
Com - seu/meu - irmo!
Com estes manos
Toda ateno,
Pois dos enganos
Vive o escrivo!

VALENTIM - Fazer vamos novo ensaio?

LUISINHA - E h de ser melhor talvez.

VALENTIM - Da oficina outra vez saio.

LUISINHA - Fico s mais uma vez.

VALENTIM - V l se o caldo entornamos!

LUISINHA - Hs de ver que no vou mal!

VALENTIM - 

O ensaio que fazer vamos
 um ensaio geral.

LUISINHA - Eu j estou pronta.

VALENTIM - Vejamos.

LUISINHA - Ateno!

VALENTIM -  o principal! (Sada falsa pelos fundos.)

LUISINHA (S.)

- Espera l! Vou te fazer 
Enraivecer!

(Valentim volta muito alegre, chega-se a Luisinha, d-lhe um beijo no
pescoo e declama: Ego sum qui sum.)

LUISINHA (Fingindo-se zangada.)

- Que petulante 
Sujeito audaz! 
Toma, tratante, Que te dou, zs! 
(D-lhe uma bofetada.)

VALENTIM (Desesperado.)

- Ento? Ento?
Pois tu fars tal recepo 
A teu marido,  desastrada?

LUISINHA - 

 que fiquei atrapalhada 
E no prestei muita ateno.

JUNTOS -  perigoso, etc...

LUISINHA - Mas, querido meu, descansa...

(Tomando-o pelo brao e como em segredo.)
Apesar da semelhana,
No haver confuso!
Pois se os olhos meus se iludem,
No se engana o corao... 

JUNTOS - Apesar da semelhana, etc... 

VALENTIM - J so horas de irmos para a matriz! Vamos procurar os
rapazes. Depois viremos jantar! E a noite o bailarico! 

(Nisto, Gregrio precipita-se em cena, vindo do fundo. D com os olhos
de Valentim, julga reconhec-lo, e abraa-o com mpeto.)

CENA IX

LUISINHA, VALENTIM, GREGRIO 

GREGRIO (Abraando a Valentim.) - Ah! meu capito, meu bravo capito?
Eu logo vi que o havia de encontrar!

VALENTIM ( parte.) - Ai, que  maluco!

GREGRIO (Contemplando-o.) - Ora, meu capito! Mas que idia foi esta de
deixar o acampamento e vir para o Recife encafuar-se em casa de seu
irmo?

VALENTIM - Ah! j percebo...  a semelhana de que falvamos ainda
agora, Luisinha. O camarada toma-me por Jorge!

GREGRIO (Atnito.) - Pois eu no estou em presena do meu capito?

LUISINHA - Est em presena do Senhor Valentim Braga. GREGRIO - O
irmo?! Com todos os diabos! O patro

j me havia falado em Vossa Merc, mas nunca supus que a semelhana
fosse to perfeita! Olhe que no lhe falta nada, com mil raios! Pois,
senhor, eu sou o Sargento Gregrio, vulgo Vomita pragas, e perteno 
companhia de seu irmo, que vinha procurar aqui.

VALENTIM - Quem? Meu irmo? Aqui? No est nem nunca esteve! O sargento
no sabe que meu irmo nunca veio ao Recife?

GREGRIO - Como? Pois no est c?

VALENTIM - No, senhor, mas no importa, sargento: saber que me caso
hoje...

LUISINHA - Que nos casamos hoje...

VALENTIM - E teremos ambos muito prazer em que um camarada de meu irmo
nos acompanhe ao jantar e s bodas.

GREGRIO - Com mil buchas! estamos mesmo bons para gavotas e sarabandas!

LUISINHA - Que tem, sargento?

VALENTIM - Assusta-me! Que h de novo?

GREGRIO - Que h de novo? Uma desgraa!

VALENTIM - No brinque!

GREGRIO - Se at amanh ao meio-dia o Capito Jorge Braga no se
apresentar no acampamento...

VALENTIM e LUISINHA - Que lhe faro?

GREGRIO - Que lhe faro? Sentenci-lo-o  morte, e pum! com seiscentas
bombas!

VALENTIM e LUISINHA (Horrorizados.) - Oh!

GREGRIO - Ento julgam que isto de ser militar  comer filhoses? Diabo
leve quem inventou os conselhos de guerra! M raios o partam, fome o
persiga, um estupor que lhe d o inferno!...

VALENTIM e LUISINHA (Benzendo-se.) - Credo!

Coplas

I

GREGRIO - 

O militar durante a guerra,
Deve andar pronto como um fuso:
Ftil delito ou leve abuso
Deita a perder um militar!
Pra que lhe dem cabo da pele
No  mister uma batalha,
Pois por d c aquela palha
Podem mand-lo fuzilar!
Embora seja um valento,
Embora seja um fracalho,
Seis negras balas o faro 
Cair morto no cho!
Pum!... pum!... pum!... 
Pum!

II

Se tem dois olhos, o soldado
Ponha um no padre e outro na missa;
Mesmo o valor, no ardor da lia,
Deita a perder um militar!
O militar, durante a guerra,
Tanto perigo corre, em suma,
Que sem [ter] feito coisa alguma,
Podem mand-lo fuzilar!

Embora seja um valento, etc...

Seu irmo ausentou-se com licena; mas h quatro dias que ela findou. O
regimento est a poucas lguas daqui, em Jaboato, preparado para atacar
um reduto holands. De um momento para outro estaremos a contas com o
inimigo, e o meu capito estar  frente de sua companhia! Isto  o que
me faz desesperar, com seiscentas mil baionetas!

VALENTIM - O inimigo! batalhas! baionetas! Ai, Virgem do Livramento, j
no sei de que freguesia sou! Malditos holandeses, que vieram agitar
esta terra, dantes to sossegada! Olhe, Sargento Vomita-pragas,
matem-se, matem-se  vontade! Eu  que no me meto nesses assados!

GREGRIO - Mas com mil raios! (Bate com a coronha da arma no cho.)

VALENTIM (Assustando-se.) - Ai, credo! Julguei que fosse um tiro! No
brinque!

GREGRIO - Tem certeza de que seu irmo no apareceu por c?

VALENTIM - No, senhor; mas pode ser que se salve, porque os chefes...

GREGRIO - Os chefes estimam-no, no h dvida! mas j tm sido por
demais tolerantes. No fosse ele o Capito Jorge Braga, e a estas horas
estaria sentenciado e morto!

VALENTIM (Chorando.) - Meu pobre irmo! Vo-no fuzilar!

GREGRIO - Isto  o menos!

VALENTIM - Hein?

GREGRIO - Uma dzia de balas no corao! Que isso ? Um pau por um
olho! Mas o pior  que ser exautorado, desonrado!

VALENTIM - Desonrado!

GREGRIO - Desonrado sim, com mil demnios do inferno! Desonrado!

VALENTIM - Pai do cu, que poderemos fazer? Lembre-se de alguma coisa,
sargento!

LUISINHA - Lembrem-se ambos. Talvez se possa arranjar tudo...

GREGRIO - Choremos na cama, que  lugar quente. Eu volto para o
acampamento, e Vossas Mercs casem-se com todos os diabos!...

VALENTIM - Casarmo-nos! Numa situao como esta!

LUISINHA - Isso nunca!

VALENTIM - Ah! que dei no vinte! Eu soube, por portas travessas, de um
namorico de Jorge com a filha de um senhor de engenho na Ipojuca.

GREGRIO - E que tem Judas com as almas dos pobres? VALENTIM - A apostar
em como est l com a pequena, sem se lembrar de que h holandeses em
Pernambuco! Vamos l! Daqui a Ipojuca so poucas lguas!

LUISINHA - Eu tambm vou, e o Senhor Sargento tambm.

VALENTIM - Tenho um pressentimento de que ali encontraremos aquele
escalda-favais. Na carreta chegaremos l num instante. (Indo  porta.) 
Vicente, manda atrelar o macho  carreta! (A Luisinha.) Em breve
estaremos de volta, e ento celebraremos as bodas. Vamos, Vicente,
despacha-te! Eu vou buscar o capote e algum dinheiro.

LUISINHA - Vou tambm preparar-me.

GREGRIO - Vamos! Aviem-se, com quatrocentas mil granadas! (Valentim e
Luisinha saem pela esquerda.)

CENA X

GREGRIO, latoeiros, mulheres, crianas, depois VALENTIM, LUISINHA,
VICENTE

Final

CORO - 

Onde o noivo est metido? 
E a Luisinha onde  que est?
Nosso bom patro querido, 
Sendo em breve seu marido, 
Felicssimo ser!

GREGRIO- Calem a boca!

CORO- Por qu? Por qu?

GREGRIO- 

Faam-me pouca 
Bulha!

CORO- 

Por qu?
No dir Vossa Merc?

GREGRIO- 

O prazer que os embriaga 
Triste caso perturbou:
O Capito Jorge Braga...

CORO- 

O irmo 
Do patro?

GREGRIO- Do batalho se ausentou!

CORO

- Que horror,  Cristo!
Jesus! que horror! 
Isto  deveras 
Constristador!

II

GREGRIO - 

Feroz conselho de guerra
Vai julg-lo em Jaboato!
Ho de deit-lo por terra...

CORO - 

Que nos diz?!
Infeliz!...

GREGRIO - Seis balas no corao!

CORO - Que horror,  Cristo! etc...

VALENTIM (Entrando com Luisinha.)

- Amigos, vou partir!

CORO - Partir!

VALENTIM (A Vicente, que entra do fundo, onde aparece a carreta
aparelhada.) - Entrego-te a oficina. - Brevemente, De volta estou.

GREGRIO - Partamos!

VALENTIM e LUISINHA - Vamos!

GREGRIO, VALENTIM e LUISINHA

- Partamos, partamos,
Sem mais demorar!
Corramos, corramos!
E a quem procurarmos
Havemos de achar!
Adeus! Adeus!

(Entram os trs na carreta. Vicente e os coristas acenam com os lenos,
enquanto a carreta se pe em movimento e desaparece.)

GREGRIO, VALENTIM e LUISINHA

- Adeus, amigos!
Adeus! Adeus!
E dos perigos
Livrai-nos Deus!
Adeus! Adeus!

CORO - 

Adeus, amigos!
Adeus! Adeus!
E dos perigos
Que os livre Deus!
Adeus! Adeus!

ATO SEGUNDO

Acampamento em Jaboato, Barracas. Armas ensarilhadas. Os soldados,
dispostos em grupo, aqui e ali, bebem e jogam.

CENA I

SOLDADOS, depois GREGRIO

CORO - 

Enquanto o rebate
No chama ao combate,
No  disparate
Beber e jogar!
Mulheres, filhinhos,
Perdidos carinhos,
Os jogos e os vinhos
No fazem lembrar!

UM SOLDADO - O pior  que no h nem novas nem mandados

Do nosso Capito!

OUTRO - O sargento a vem... Toda ateno, soldados!

CORO - Soldados, ateno!

TODOS (A Gregrio, que entra muito triste, de braos cruzados.)

- Ento? Ento?
Consigo traz o Capito?

GREGRIO - No!...

Com quatrocentos mil cartuchos! 
No vem comigo 
O Capito! ...

CORO

- Oh! que aflio!
No traz consigo o Capito!

GREGRIO - 

Andei, corri por ceca e meca, 
Por olivais de Santarm... 
Desde o Recife a Muribeca
No vi ningum!

CORO - No vi ningum!

GREGRIO - 

O Conselho de guerra
L se vai reunir!
Est tudo por terra...
S lhe resta fugir...

CORO - 

Vamos ver,
A tremer!
O conselho de guerra, etc.

(Sada geral.)

 

CENA II

GREGRIO - Onde estar metido aquele diabo, com seiscentas bombas!
Tnhamos certeza de encontr-lo na Ipojuca, mas qual histrias, nem
sombras! Em que dar tudo isto?

A voz DE VALENTIM - Devagarinho... Cautela, Luisinha... Desce...
apia-te ao meu brao... assim...

GREGRIO - A temos o funileiro e a noiva.  preciso afast-los daqui.
Ao ouvir ler a sentena, cada um deles  capaz de ter o seu faniquito, e
eu no tenho jeito para tratar de mulheres nem de medrosos!

CENA III

GREGRIO, VALENTIM, LUISINHA

VALENTIM (Dando o brao a Luisinha.) - E eu digo-te que deve estar aqui
(Vendo Gregrio.) Olha, ali o tens. Bons dias, sargento; demoram-nos um
pouco, mas no se queixe de mim: queixe-se do jumento, com sua licena.

GREGRIO ( parte.) - Ora so bem c precisos!

VALENTIM - Julguei que chegasse tarde; por isso vim por esses caminhos
vendendo azeite s canadas. No sei o que tinha o maldito jumento! Por
mais que eu lhe batesse e lhe dissesse: - Corre, meu velho, corre, que
querem dar cabo de meu irmo! Corre, que tu tambm s quase da famlia!
- nada! Cada vez andava mais devagar!

LUISINHA - Mas, afinal, c estamos. Diga-nos, sargento: podemos falar ao
general?

VALENTIM - Imediatamente?

GREGRIO - No  possvel. Agora ningum lhe pode falar. Est reunido o
conselho de guerra e formada a tropa.

VALENTIM - Por isso no encontramos um nico soldado a quem
perguntssemos por Vossa Merc... Vinha eu dizendo  Luisinha: -
Vamo-nos perder por a.. e, afinal de contas, andar assim ao
deus-dar... no meio do acampamento... Vem uma bala sem subscrito, e
manda uma pessoa desta para melhor vida enquanto o diabo esfrega um
olho! - Aqui sempre estamos melhor, pois no estamos? Esperamos aqui que
termine o tal conselho, e depois iremos todos falar ao general. Que lhe
parece, sargento?

GREGRIO - Com cinqenta milhes de Satanases! pois so Vossas Mercs
to pouco espertos, que me no conheam, na cara, no haver esperana
possvel?

LUISINHA e VALENTIM - Hein?

GREGRIO - Ao general ningum fala. J eu lhe quis falar e no consegui.

VALENTIM - Valha-nos Deus! e eu, que contava alcanar alguns dias de
espera!.

GREGRIO - Julga que o general  de folha-de-flandres? Aquilo  duro
como uma rocha!

LUISINHA - Nesse caso a nossa viagem  completamente baldada?

GREGRIO - Completamente!

VALENTIM - (Animando-se.) -  o que havemos de ver!  o que havemos de
ver! Ah! ah!... Hei de mostrar para quanto sirvo!  que me no conhecem!
 que no sabem quem aqui est!

GREGRIO (Admirado.) - Que  isto?

LUISINRA - Nunca o vi assim!

Coplas

I

VALENTIM - 

Hei de o conselho

de guerra ver;

Nele o bedelho

Quero meter!

Se no consigo

L penetrar,

No mais comigo

Podem contar!

Das sentinelas

Dou cabo at!

Nenhuma delas

Fica de p!

Que, em tais alturas,

Eu sou capaz

De cem loucuras

Fazer: zs! trs!

Que espalhafato!

Que irmo audaz!

Degolo e mato

Vo ver! zs! trs!

GREGRIO e LUISINHA -

Diz o gabola
Que tudo faz!
Mata, degola!
Zs! trs! Zs! trs!

II

VALENTIM

- No desespero 
Mil vezes no!
Salv-lo quero,
Que  meu irmo!
Pra quanto presto
Vo todos ver!
Cum simples gesto
Fao tremer!
Foram-se as nicas!
Do sangue a voz
Faz dum maricas
Tigre feroz!
Que espalhafato!
Que irmo audaz!
Degolo a mato!
Vo ver! Zs trs!
Diz o gabola

GREGRIO E LUISINHA -

Que tudo faz!
Mata, degola!
Zs! trs! Zs! trs!

LUISINHA - Ah, Valentim! quero dar-lhe um abrao! Quanto gosto de o
ouvir falar assim! 

VALENTIM - Deixem acabar o tal conselho, e vero!

LUISINHA - Diz o sargento que no  possvel! 

GREGRIO - No se perde nada com experimentar. Talvez que se possa fazer
alguma coisa, com mil canhes!

VALENTIM -  sargento, diga-me c: a Luisinha pode descansar numa destas
barracas? Coitadinha! Deve estar moda!

GREGRIO - Ali tem... naquela barraca  que se alojava seu irmo...
(Chorando.) Ento? no estou eu a chorar, com cem... Ento?

VALENTIM (Chorando.) - Era ali?... (Abrindo a porta da barraca.) Sim...
c est a mala... o leito... o uniforme e a espada! S falta ali o meu
pobre Jorge!

LUISINHA (Que tambm chorou.) - Vamos, no h que desanimar! Pode ser
que esteja de volta antes do meio-dia!

VALENTIM (Limpando as lgrimas.) Nossa Senhora do Livramento te oua!
Senhor Sargento, espere um pouco, que eu j volto para darmos princpio
 nossa obra!

GREGRIO - V, que o avisarei quando for ocasio.

VALENTIM - Vamos, Luisinha! (Entra com Luisinha na barraca.)

CENA IV

GREGRIO, s; depois, PANTALEAO DE ARAGO

GREGRIO - Pobre gente! Tem esperanas, e eu nenhuma! Vamos, Gregrio,
meia volta  direita! Ordinrio! Marche! (Vai a sair; encontra-se com
Pantaleo.)

PANTALEO - Alto a banca! Faz favor de me dar dois minutos de ateno!

GREGRIO - No posso! (Vai saindo.)

PANTALEO (Deitando-lhe a mo.) Oua-me, que  negcio importante!

GREGRIO - No bata no plpito, com seiscentas bombas! Vou em servio...
tenho pressa... Passe bem!

PANTALEO - No o demoro, camarada.

GREGRIO - Sargento.

PANTALEXO - So s duas palavras.

GREGRIO - Diga l.

PANTALEO - Conhece este retrato? (D-lhe uma miniatura.)

GREGRIO - O meu Capito!

PANTALEO - Hein? Pois  este o seu Capito?

GREGRIO - Jorge Braga!

PANTALEO - Jorge Braga,  ele mesmo! ( parte .) Desta vez no me
escapar!

GREGRIO - Com a breca! Traz notcias dele? Onde se meteu? Onde o
puseram? Onde pra? Corre perigo?... Responda, com trinta milhes de
baionetas!

PANTALEO - Abaixe a voz, Senhor Sargento! Olhe, que eu c tambm sei
largar cutelos e varredoras, e praguejar quando  preciso, com todos os
demnios do inferno!

GREGRIO - E eu no tenho medo de caretas, com todos e mais alguns!

PANTALEO - Calma... Calma... O tal Capito no est no acampamento?

GREGRIO - Se aqui estivesse, eu no lhe perguntava por ele!

PANTALEO - Ah! no est!

GREGRIO e PANTALEO (Juntos). - No est com todos os diabos, com cem
mil bombas, e seiscentos raios!

PANTALEXO - Mas ele no pertence a esta diviso, companhia ou que
demnio que seja? Como  que no est c?

GREGRIO - Desapareceu, j lhe disse! Ningum sabe por onde anda! E se
dentro de uma hora no se apresentar, renem o conselho, julgam-no,
sentenciam-no, matam-no, fuzilam-no, com mil raios!

PANTALEXO - Fuzilam-no! ( parte.) No era essa a morte que eu lhe
desejava!. (Alto.) Ento no est no acampamento, hein? Isto s no
inferno!...

GREGRIO - Nem no inferno!

PANTALEO - Se eu tivesse a certeza de o encontrar l!...

GREGRIO - L onde?

PANTALEO - No inferno, com mil diabos! L mesmo seria capaz de ir
procur-lo!

JUNTOS

[PANTALEO - Com todos os diabos! com cem mil raios! com seiscentas
borrascas (Sai.) 

GREGRIO - Pois v, com seiscentas bombas, com cem mil raios, e todos os
diabos!]

(Pantaleo vai saindo a proporo que pragueja.)

GREGRIO (S, muito calmo.) - Est penalizado, como todos ns.

CENA V

GREGRIO, o AJUDANTE-DE-ORDENS, OFICIAIS, SOLDADOS, depois VALENTIM,
depois LUISINHA

GREGRIO (Durante a entrada dos militares.) - A vem o ajudante de
ordens. Que ter sucedido?

O AJUDANTE (A Gregrio.) - No lhe vejo remdio.  verdade que o general
mandou esperar at o meio-dia. Mas se at l no se apresentar o
Capito, ser dada a sentena.

VALENTIM (Entrando.) - Parece que j terminou o conselho. Vejamos se
encontro o sargento para irmos ao general. (Dirige-se a Gregrio. o
ajudante repara nele.)

Concertante

AJUDANTE - Que vejo?  ele!... O Capito!...

CORO - O Capito!

AJUDANTE - O Capito!

CORO -  o Capito!

AJUDANTE - 

Oh, que perigo
Correu, amigo!
Oh, que imprudncia, Capito!
Se se demora
Mais uma hora,
No tinha mais apelao!

CORO - 

Se se demora
Mais uma hora, 
No tinha mais apelao!

AJUDANTE - 

Mas... a que vem este disfarce?
Este disfarce?... ( parte.) J entendo...
J compreendo:
 a maldita parecena!

GREGRIO (Baixo, a Valentim.)

- H de calar-se, 
Se em salvar seu mano .......

LUISINHA (Que tem entrado e ouvido tudo.)

- Ai, meu Deus, ai, como tremo! 
Eis-me quase a desmaiar! 
Enviuvo,  Deus supremo, 
Antes mesmo de casar!

VALENTIM - 

Ai, meu Deus, ai, como tremo!
Meu irmo vim c salvar,
Mas no vo,  Deus supremo,
Fuzilar-me em seu lugar!

GREGRIO - 

Ele treme, eu tambm tremo,
Pois o caso  singular...
 decerto um meio extremo
- Pelo irmo aqui passar!

OS OUTROS

- Entre ns de novo o vemos! 
Pde em tempo ainda voltar!
A amizade que lhe temos 
Nos fazia recear.

AJUDANTE (A Valentim.)

- Comunicar sua presena
Vou neste instante ao general;
Mas - antes disso - com licena;
Venha um abrao fraternal.
(Abraam-se.)

CORO - 

Oh! que perigo
Correu amigo!
Oh, que imprudncia, Capito!
Se se demora
Mais uma hora, 
No tinha mais apelao!

TODOS - Viva o Capito Jorge Braga! Viva!

GREGRIO (Baixo.) - Agradea.

VALENTIM (Cumprimentando com acanhamento.) - Senhores, muito obrigado...
muitssimo obrigado... O meu

corao... o meu reconhecimento...

GREGRIO (Baixo.) - Bom,  melhor estar calado.

AJUDANTE - Outro abrao, Capito... e at logo! (Sai com os oficiais.)

GREGRIO - Agora, Capito, v mudar de fato! V vestir seu uniforme.

VALENTIM - O uniforme?!... Ah, sim! Diz muito bem... Vou pr o
uniforme... ( parte.) Que bonita figura hei de eu fazer com o tal
uniforme!

GREGRIO - Vamos! no se demore! Lembre-se de seu irmo!

VALENTIM - Senhores, vou vestir o meu uniforme. (A Gregrio.) Veja l em
que assados me mete Vossa Merc!

GREGRIO (Aos soldados.) - Agora, rapazes, vo anunciar  companhia a
volta do Capito!

TODOS os SOLDADOS - Viva o Capito! Viva! (Saem, repetindo um motivo do
ltimo coro.)

CENA VI

GREGRIO, LUISINHA

LUISINHA - O Senhor Sargento no se zangue com o que eu vou lhe dizer;
mas parece-me que esta troca...

GREGRIO - Xiu! Silncio!... as paredes tm ouvidos!

Deste modo ganhamos tempo, que  o principal. Quando o capito chegar, o
Senhor Valentim despe-se... O Capito enverga a farda, e ei-los depois
cada um no seu natural. O Capito aqui, e o Senhor Valentim l na
funilaria. LUISINHA - Mas Vossa Merc no imagina! O Valentim  um
maricas! Que ir ele fazer com uma farda s costas? Nunca me hei de
esquecer de uma noite em que quase morreu de susto por causa de um gato
que andava pelo mirante!

GREGRIO - Eu o farei espertar! Aqui, o mais urgente  evitar a
sentena; depois...

LUISINHA - Depois... Veremos! Mas duvido que o resultado seja bom.

CENA VII

OS MESMOS, VALENTIM

VALENTIM (Com o uniforme ridiculamente vestido.) - Que tal estou? Olhem
pra isto!

GREGRIO - Oh, com os diabos! Como arranjou isso?

LUISINHA - Que lhe dizia eu? Olhe para aquela figura!

VALENTIM - Ento eu no me pareo agora com meu irmo?

GREGRIO - Na cara parece-se: no feitio  que h grande

diferena! Vamos, arreganho!  um recruta sem tirar nem pr!
(Arranjando-lhe a farda.) A farda veste-se assim!

VALENTIM - Olhe, que me afoga!

GREGRIO - Essa espada no se traz aqui na frente. Isto

pe-se atrs! Assim! (Faz o que diz.)

VALENTIM - Nada, essa agora  nova! A espada estava perfeitamente onde
estava! Assim mete-se-me por entre as pernas! (Tropeando na espada.)
V? Depois, quando quiser tirar a espada, tenho de voltar as costas... a
mim mesmo?! No posso perceber!

GREGRIO - E o chapu? Parece que nunca ps um chapu?!

VALENTIM - Destes  a primeira vez, sargento.

GREGRIO - Assim! (Pe-lhe o chapu.) Agora j parece  outro!

VALENTIM - Olhe que no vejo seno de um olho!

GREGRIO - No faz mal! Vamos! Esse corpo perfilado! Gesto arrogante!
Passo firme!

VALENTIM - Assim?

GREGRIO - No, homem de Deus! parece-me um velho!

Terceto

VALENTIM - 

Faa favor de dar-me uma lio:
Quero aprender!

GREGRIO (Indo ao fundo.) - Vai ver! (Descendo a marchar com todo o
garbo.)

Ratapl! ratapl! ratapl!
Pl! pl! pl! 
Ratapl! pl! pl!

VALENTIM - Agora eu! (A Luisinha.) V l como me saio

Deste ensaio!

(Faz o mesmo que Gregrio, mas desaleitadamente.) Ratapl! ratapl!
ratapl! etc...

LUISINHA - No! no! Faa como eu fao!

Comigo aprenda! Acerte o passo!

(Marcha ainda com mais galhardia que Gregrio.) 

Ratapl! ratapl! ratapl!

GREGRIO - Muito bem!

VALENTIM (A Luisinha.)

- Quem te ensinou?

LUISINHA - 

Ningum!
Muito fcil !
Intuitivo at!
 ver,  ver, 
E aprender!

GREGRIO - Agora os trs!

(Vo todos ao fundo, e fazem diversas manobras, marchando de um lado
para outro lado.)

OS TRS - Ratapl! ratapl! ratapl! etc...

GREGRIO - Devo advertir-lhe que  preciso praguejar, - rogar pragas,
falar no diabo! Seu irmo est sempre a fazer tremer o mundo!

LUISINHA - Aprendeu com o sargento.

VALENTIM - Mas eu, palavra de honra! eu sou uma pomba sem fel... Nunca
me zango!... Eu posso l praguejar!

GREGRIO - H de praguejar por fora! Assim! (Furibundo.) M raios te
partam, diabo! Maldito sejas! V para os infernos, com trezentas
granadas!

(Valentim repete todas essas pragas num tom suave.)

LUISINHA - Isso no  assim! Parece uma menina! Com mais alma! Assim: M
raios te partam! Maldito sejas! Vai

para os infernos, com trezentas granadas!... 

GREGRIO - Belo! Belo! Muito bem!...

VALENTIM - Que talento de mulher!

GREGRIO -  uma jia! Era capaz de comandar a companhia melhor que
Vossa Merc!

VALENTIM - Melhor do que eu, qualquer. Enfim, veremos como me saio
desta... O que me ensinaram at agora, passe... mas fiquem na certeza de
que l coisa de plvora...  que no vai nada! (Entra o ajudante de
ordens.) Bom, ei-los comigo!

CENA VIII

OS MESMOS, o AJUDANTE-DE-ORDENS

O AJUDANTE - Capito Jorge Braga, acaba de ser dissolvido o conselho de
guerra que O havia de julgar.

VALENTIM (Baixo a Luisinha.) - Que fortuna! Salvei meu irmo!

AJUDANTE - E venho dizer-lhe...

VALENTIM - Ai, Jesus! o qu?

GREGRIO ( parte.) - Tremo!

AJUDANTE - O general resolveu castig-lo pela sua prolongada ausncia.
Ordena que se recolha  sua barraca!

GREGRIO ( parte.) - Oh, que afronta para o meu pobre capito!

VALENTIM ( parte.) - Se  s isso... (Alto.) Pois diga ao general que
estimo muito!

GREGRIO (Baixo.) -  diabo,  o contrrio! Mostre-se sentido! 

VALENTIM (Emendando.) - Sim, que estimo muito v-lo bom... Mas que esta
afronta  muito... ... M raios te partam, diabo! Maldito sejas! Vai
para os infernos, com trezentas granadas!

AJUDANTE - Compreendo que isto o aflija! A um valente e brioso militar
muito custa a deteno em dia de batalha!

VALENTIM - Ah! vai haver hoje batalha? (Contentssimo.) Pois ento...

GREGRIO (Baixo.) Mostre-se sentido, com todos os demnios!

VALENTIM (Noutro tom.) - Com que ento, vai havei hoje batalha? Com
trezentos milheiros de diabos! E no irei  frente de minha companhia! E
no sentirei o zunir da plvora, nem ouvirei o cheiro das balas! No me
acharei entre metralhas e granadas! ... rodeado de mortos... Ah! sangue!
sangue!... E eu, que gosto tanto de ver sangue!

AJUDANTE - Capito, entregue-me a espada!

VALENTIM - Pois quer s a espada? E ento a bainha? GREGRIO (Baixo.) -
Cala-te, animal! ( parte.) Desonrado! Desonrado o meu capito!...

VALENTIM - Diga ao general que muito me custa separar-me dela! Enquanto
 palavra de no ir  batalha, dou-lha com muito pra... (Gregrio
puxa-lhe a farda.) ... com muito pesar. Mas fique certo de que a
cumprirei religiosamente.

AJUDANTE - Bem, Capito! Talvez que o general, em vista do seu
arrependimento, lhe mande dar a liberdade!

VALENTIM - No, meu amigo, isso  que no! O castigo  grande
certamente, mas eu o mereo, oh! se mereo!  duro, bem sei, mas - vamos
l! -  preciso um grande exemplo!

AJUDANTE - As suas ordens. (Sai.)

CENA IX

VALENTIM, GREGRIO, LUISINHA

VALENTIM - Louvada seja Nossa Senhora do Livramento! Meu irmo est
salvo!

LUISINHA - Preso num dia de batalha! Vai tudo s mil maravilhas! ...

GREGRIO - Maravilhas! Chamam-lhe maravilhas!... No sabem que; um
militar prefere morrer a ficar de braos cruzados num dia de combate! -

VALENTIM - Mas eu c no sou militar...

GREGRIO - Vossa Merc agora no  Vossa Merc;  seu irmo! Vou
arranjar este negcio!

VALENTIM - Que negcio! Ol sargento! no se meta onde no  chamado!

GREGRIO - Volto j. Tudo h de se arranjar. (Sai.)

VALENTIM - Que diabo ser?... Entra ali, Luisinha... vou ver o que faz
aquele espirra-canivetes.

LUISINHA - Veja l, Valentim, no v fazer asneiras! (Entra na barraca.)

VALENTIM - Descansa. (Dirige-se para o fundo; encontra-se com Pantaleo
de Arago.)

CENA X

VALENTIM, PANTALEAO

PANTALEO ( parte.) -  ele! (Alto.) Alto a banca, Capito: eu sou
Pantaleo Beltro de Arago!

VALENTIM - Estimo muito. ( parte .) Ao, o, o!  um co que ladra!

PANTALEO - Sou capito da escuna Conceio; cheguei do reino h cinco
dias!

VALENTIM - Estimo ainda mais.

PANTALEO - Sou irmo de Dona Guiomar Beltro de Arago, e filho do
finado Capito-mor Elesbo Romo de Arago, senhor de engenho que foi na
Ipojuca.

VALENTIM - Que o seja Vossa Merc por muitos anos e bons. ( parte.) 
uma famlia onomatopaica.

PANTALEO - Portanto, j deve saber o que pretendo.

VALENTIM - Por ora, no, senhor.

PANTALEO - Como?! Com seiscentos jacars! Pois nega ter, durante a
minha ausncia, seduzido minha irm, Dona Guiomar Beltro de Arago?!

VALENTIM - Eu?! -  homem, isso no so brincadeiras!

PANTALEO (Mostrando-lhe um mao de cartas.) - Conquanto no estejam
assinadas, negar que estas cartas sejam suas?

VALENTIM ( parte.) - A letra do meu irmo!...

PANTALEO - Vejo que ficou desmaestreado! Estas cartas no me permitem,
com trezentos tubares! duvidar da desonra de minha irm, Dona Guiomar
Beltro...

VALENTIM - De Arago, j sei...  que... ( parte.) O maroto de meu
irmo meteu-me em bons lenis...

PANTALEO - Capito, uma reparao, ou morre pela minha mo, como um
co!

VALENTIM (Afetando sangue frio.) - Entendamo-nos, Senhor Arago... que
diabo! Vamos ver se ns entendemos!...

PANTALEO - Uma reparao, com mil burrajonas!

VALENTIM - Faa favor de atender-me, e no me fale em armas de fogo. (
parte, sentando-se.) Ganhemos tempo, at que aparea meu irmo, para se
entender com ele... (Alto.) Enquanto ao dar a minha mo de esposo a sua
mana, no digo que no... porque enfim... ela  moa... bonita... (
parte.) Ser?... (Alto.) Bem-educada... modesta... Em posio, podemos
perfeitamente medir-nos: Vossa Merc  capito de navio; eu sou capito
do exrcito: no h diferena nenhuma. O senhor seu pai tambm era
capito, com a diferena de que era capito-mor... Os nossos gnios 
que no se combinam... Enfim, para a semana que vem, falaremos... Sou um
seu criado! (Quer retirar-se.)

PANTALEO (Furioso.) - Com mil raios! Pensa que sou homem que se
contenta com uma simples palavra, quando se trata da honra de sua
famlia? Aqui tem este documento, que o senhor h de assinar! E, se o
no fizer, deito fogo ao paiol da plvora!

VALENTIM (Depois de ler.) - O qu? Uma promessa formal de casamento?

PANTALEO - Justamente. Tomamos, em conselho de famlia, a resoluo de
apresentar-lhe este documento! E eu, como mais velho,  que lhe venho
dar abordagem.

VALENTIM ( parte.) - Escapo do conselho de guerra, para cair no
conselho de famlia...

PANTALEO - Assina ou no?

VALENTIM - Isto... sim, isto da gente casar  negcio muito srio... 
preciso meditar...

PANTALEO (Tirando duas pistolas.) - Aqui esto duas pistolas!
Proponho-lhe um duelo! Saiamos!...

VALENTIM (A tremer.) - Um duelo... ( parte.) Ui! e eu que no me
lembrava que estava detido... (Alto.) Pois bem! Saiamos!

PANTALEO - Ora graas a Deus! ...

VALENTIM - E desde j o previno que h de ser um duelo a valer!

PANTALEO - Como?!

VALENTIM - No dou quartel!

PANTALEO - Nem eu, com mil tempestades!

VALENTIM - Um de ns h de ficar morto!

PANTALEO - Certamente.

VALENTIM - E o outro vivo. - Marchemos! (Parando de repente.) M raios
te partam, diabo! Maldito sejas! Vai para os infernos, com trezentas
granadas!

PANTALEO - Que  l isso?

VALENTIM - No posso sair!

PANTALEO - Por qu?

VALENTIM - Estou detido aqui! Bem v... no tenho espada... Desgraado
de mim! No tenho espada!

CENA XI

OS MESMOS, GREGRIO

GREGRIO (Entrando a correr, com a espada de Valentim na mo.) -
Vitria! Vitria, meu capito!... O general j lhe concedeu perdo, e
manda restitui-lo  liberdade. Aqui tem a espada!

VALENTIM ( parte.) - O que tu queres  matar-me, assassino!

PANTALEO - J no h obstculos que nos interponha.

VALENTIM - Engana-se redondamente. Eu sou um oficial

experimentado, sei a minha obrigao, e aqui no sairei sem uma licena
assinada pelo general! Pois qu! Porque um sargento vem dizer-me isto,
hei de lhe dar crdito? Eu no sou nenhum soldado de chumbo! No recebo
ordens de meus inferiores! Daqui no saio sem o preto no branco! Nada...
no saio!... - Quer uma ordem assinada?... J lha trago! (Sai
precipitadamente.)

CENA XII

VALENTIM, GREGRIO, LUISINHA

VALENTIM - Vossa Merc meteu-me em boas!

GREGRIO - Hein?

LUISINRA (Entrando.) - Que foi fazer, sargento?

GREGRIO - Por qu?

VALENTIM - Nada, uma brincadeira! Pelo que vejo, meu irmo seduziu a
irm deste Arago Furaco que acaba de sair!

LUISINHA - Este homem quer  viva fora bater-se com Valentim, julgando
que  o irmo. Ouvi tudo dali... Tremia de medo!

GREGRIO - Ento ainda se queixa de mim por ter salvo a honra de seu
irmo? Alcancei-lhe a entrega da espada e o comando da companhia
indicada para marchar primeiro e tomar o reduto ao inimigo!

VALENTIM (Horrorizado.) - Um reduto?! Misericrdia!!...

LUISINHA - Isso  que no consinto.

GREGRIO - Esteja calada, faa favor.

LUISINHA - Valentim, probo-lhe que tenha coragem!

VALENTIM - Por esse lado, fica descansada. - No me faltava mais nada!
Que diabo, ou no sou soldado, sou funileiro! No fao proezas, fao
canecas. Sou muito amigo de meu irmo, mas isto assim j passa de
amizade! J fiz bastante por sua causa!

GREGRIO - Agora  pegar-lhe com um trapo quente! Se descobrem que no 
o capito, fuzilam-no!

VALENTIM - Onde me vim meter, meu Deus?!

GREGRIO - Faa de conta que embarcou. No h remdio seno esperar a
borrasca! Se tem amor a seu irmo,  marchar para a frente, com mil
diabos! Nem todos que entram em campanha morrem! Aqui estou eu que
sempre sa so e salvo!

VALENTIM - Vossa Merc est habituado. As balas j o conhecem e no lhe
fazem mal. Mas eu...

LUISINHA (Chorando.) - Valentim, se vais bater-te, nunca mais te verei!

VALENTIM - Disso  que eu tenho medo, Luisinha. Eu, metido numa batalha,
sem entender nada daquilo... Do-me cabo do canastro com toda a certeza!

GREGRIO - Cobri-lo-ei com meu corpo...

VALENTIM - Sim, mas, se o atravessarem, a mim tambm me h de tocar
alguma coisa... Nada!  impossvel... Vou fugir!

LUISINHA - Isso! isso!

GREGRIO - Pois bem! Fuja, com trinta milhes de granadas! Mas saiba que
 a Vossa Merc que seu irmo vai dever a sentena de morte!

VALENTIM - Ai, Jesus! que farei? No haver algum remdio para ser
valente sem correr perigo? (Ouvem-se descargas de fuzil.) Ai!

GREGRIO - Ouve? J comeam as guerrilhas!

VALENTIM - Nossa Senhora do Livramento me acuda!

GREGRIO (Tomando-lhe o brao.) - Vamos! Valor! Um homem  um homem!
(Msica na orquestra.) Olhe, a vem a companhia formada! Que prazer ter
seu irmo quando souber que foi ele quem tomou o reduto! (A orquestra
toca com toda a fora. Aparece a companhia em ordem de marcha.)

CENA XIII

OS MESMOS, o AJUDANTE-DE-ORDENS, SOLDADOS 

Canto

O AJUDANTE - A companhia espera o Capito.

GREGRIO (A dois soldados.)

- Vo buscar o cavalo!
(Os dois soldados saem.)

VALENTIM 

- Que grande abalo!
Que comoo!
Foram buscar o cavalo...
Ai, que triste situao!
J no me posso
Nas pernas ter!
Tenho medo, que me coo!
Vou de medo aqui morrer!

(Os dois soldados voltam, trazendo pela rdea um magnfico cavalo,
perfeitamente ajaezado.)

CORO - O cavalo! o cavalo!

GREGRIO - 

Eis o cavalo ardido
Do grande Jorge Braga,
O militar indmito
Que nunca fraquejou!
Que o leve  guerra intrpido!
Que triunfante o traga!
Cavalo assim to trfego
Nunca ningum montou!

CORO - Eis o cavalo ardido, etc...

GREGRIO (A um soldado, depois de agarrar em Valentim, que treme.)

- Queira ajudar-me a p-lo em cima.

( parte.)

O desgraado no se anima!

(Conseguem a muito custo fazer com que Valentim monte a cavalo.)

VALENTIM (Montado.)

- Adeus,  Luisinha!
Adeus, amores meus!
Adeus, querida minha!
Talvez pra sempre adeus!

VALENTIM e LUISINHA (Clamando.)

- Adeus, adeus! adeus! 

CORO - 

Viva e reviva o Capito!
De exemplo sirva ao fracalho!

(Sai Valentim  frente de toda companhia. Segue-os o ajudante de
ordens.)

 

CENA XIV

LUISINHA, s

LUISINHA - Valentim, meu marido! Levam-no!... e eu no tenho foras para
acompanh-lo! Infeliz! Que vai ele fazer no meio de uma batalha? Se no
morrer de uma bala, morre de susto com toda a certeza! (Ouvem-se
descargas.) Virgem Santa! (Tapa os ouvidos.) Agora  que ele morre! (Cai
de joelhos.)

Prece

Virgem purssima,
Virgem das Dores,
Ai, compadece-te,
Virgem, de mim!
Roubam-me os cndidos,
Castos amores!
Resgatem lgrimas
Meu Valentim!

CENA XV

LUISINHA, PANTALBO

PANTALEO - Senhor Capito Jorge Braga, aqui tem a ordem!

LUISINHA (Erguendo-se.) - Quem ? Quem procura? Traz noticias dele?
Mataram-no?

PANTALEO - Mataram-no? A quem?

LUISINHA - Ao Capito, a meu marido!

PANTALEO - Que diz, minha senhora? O Capito  casado?

LUISINHA - Quase. Devamos casar ontem. Mas alguns contratempos houve, e
s amanh seremos marido e mulher!

PANTALEXO - Ah! infame! J agora compreendo por que ele andava a
bordejar... bordejar!... Mas hei de encontr-lo! Quero beber-lhe o
sangue, com mil diabos!...

LUISINHA - Tambm este! Toda a gente quer mat-lo, coitado!

PANTALEXO - Ele onde est?

LUISINHA - A estas horas, no outro mundo. No ouve as descargas? Foi com
os soldados tomar um reduto. Matam-no sem compaixo!

PANTALEO - H um Deus para os velhacos! Morrer com honra, como morrem
os heris!

LUISINHA - Mas por que deseja que morra o meu Valentim?

PANTALEO - Valentim!? Quem lhe fala em Valentim? Refiro-me ao Capito
Jorge Braga! Esse monstro desonrou a famlia Beltro de Arago!

LUISINHA - Ah!  o tal capito de navio! Se o Valentim escapar s balas
dos holandeses, vir com certeza morrer s mos deste Ferrabrs!
(Ouvem-se aclamaes.)

PANTALEO - Vozes...

VOZES - Viva o Capito Jorge Braga! Viva!

PANTALEO - O Capito Jorge Braga! Aclamam-no!

LUISINHA (Contente.) - Ser possvel?

CENA XVI

OS MESMOS, VALENTIM, GREGRIO, oficiais, soldados, depois O
AJUDANTE-DE-ORDENS

(Valentim entra triunfalmente, a cavalo, trazendo algumas bandeiras
holandesas. Gregrio vem a seu lado.)

MARCHA e CORO - 

Vitria! vitria!
Saiu vencedor!
Cobriu-se de glria,
De brio e valor!
 coisa notria
Que um bravo aqui est!
Direito pra histria
Daqui marchar!

GREGRIO (A Valentim.)

- Animo! J no h perigo!

LUISINHA - Como te foste,  meu amigo?

VALENTIM - 

O meu cavalo  que deu jeito:
No quero fama sem proveito.

AJUDANTE - 

Senhores, em paga
De tanto valor,
Vai o Senhor Jorge Braga,
Por ordem superior,
Ser elevado a major!

CORO - Viva o major!

VALENTIM ( parte.)

- Se eu sou major, 
Deve o cavalo 
Ser coronel...

AJUDANTE - O general quer abra-lo:

Vamos ao quartel!

CORO - Vamos ao quartel! 

PANTALEO ( parte.)

- Hei de ir tambm... 

VALENTIM (A Luisinha.) 

- Comigo vem... 

CORO - Vitria! vitria! etc... 

ATO TERCEIRO

Sala no palcio do Governador, comunicando ao fundo com a capela do
palcio por uma larga porta, na qual pende longo reposteiro.  esquerda,
2 o  plano, a porta da entrada principal.  direita, na mesma direo,
uma porta dizendo para os aposentos do Governador. A esquerda, 1 o
plano, pequena porta.  direita, uma mesa com instrumentos de
matemticas e de um mapa geogrfico.

CENA I

Convidados (cavalheiros e senhoras) ,depois VALENTIM, da porta
principal, trazendo consigo as bandeiras do segundo ato, acompanhado
pelo AJUDANTE DE ORDENS e outros OFICIAIS; depois GREGRIO e LUISINHA;
depois UM REPOSTEIRO.

Coro de Convidados

Que esplndido sarau! que lindo baile flgido!
Do dia o grande heri merece muito mais!
Matias de Albuquerque est satisfeitssimo,
E honra destarte a flor de seus oficiais

(Ouvem-se aclamaes.)

Ei-lo a vem! Que Deus o traga! 
 o valoroso Jorge Braga!

VALENTIM (Entrando e declamando.) - Obrigado, meus senhores, muito
obrigado!

CORO - 

Tu que pra glria vais e da vitria vens,
Mais uma vez recebe os nossos parabns.

(Grandes mesuras.)

VALENTIM - Minhas senhoras... meus senhores... confundem-me tantos
cumprimentos. Creiam que nada fiz, nada, absolutamente nada. Outro
qualquer faria o mesmo.

O AJUDANTE - O Major  a modstia personificada!

VALENTIM ( parte.) - Quantas honras estou usurpando ao meu cavalo!
(Vendo Gregrio e Luisinha, que entram e se aproximam timidamente.) Ah!
esto aqui? Meu amigo, endoudeo, no h que ver! Tenho que ir 
presena do Governador; ver que no digo palavra e fao asneira!

LUISINHA - Cautela!

GREGRIO - No esquea a lio, e fale o menos que puder.

O REPOSTEIRO (Aparecendo a porta dos aposentos do Governador.) - O
Senhor Governador recebe o Senhor Major Jorge Braga, e os demais
senhores oficiais que o acompanharem.

VALENTIM - Agora  que so elas!

GREGRIO - nimo!

LUISINHA - Coragem!

AJUDANTE - Vamos!

(Valentim e os militares entram nos aposentos do Governador; os demais
convidados espalham-se e saem por diversas direes. S ficam em cena
Gregrio e Luisinha.)

CENA II

GREGRIO, LUISINHA

LUISINHA - Diga-me, Senhor Gregrio, ns ficamos aqui?

GREGRIO - Esteja tranqila, ningum nos mandar sair. Hoje  dia de
sarau... e o jardim do palcio est aberto ao pblico.

LUISINHA - Isso  o jardim; mas ns estamos...

GREGRIO - Dentro de casa; que tem isso? Ai, que a menina est me saindo
mais medrosa que o trangalhadanas do seu noivo! Ontem, no campo,
parecia outra, com seiscentas bombas!

LUISINHA - Era para dar-lhe coragem. Hoje, confesso que o que mais me
preocupa  o tal Pantaleo de Arago.

GREGRIO - Ora, esquea-se disso!

LUISINHA - Tenho muito medo que ele mate o meu pobre Valentim...

GREGRIO (Impaciente.) - E que importa?

LUISINHA - Que importa?  boa!

GREGRIO - No  isso o que me inquieta. Receio que o latoeiro faa
alguma em presena do Governador... e Matias de Albuquerque no  para
graas. Queira Deus lhe aproveite a lio que lhe dei hoje pela manh.
Vai Vossa Merc, disse-lhe eu, vai Vossa Merc, coloca-se diante do
Governador, e diz-lhe: - "Aqui tem Vossa Senhoria as bandeiras que eu
tomei ao inimigo: onde quer que as ponha?" - Ah! fosse a coisa comigo,
com seis mil bacamartes!... Mas o seu noivo  um maricas, o que alis
no impede que seja um grande heri.

LUISINHA - Um grande heri?

GREGRIO - Heri  fora,  verdade, mas heri! No foi o primeiro nem
ser o ltimo!

Coplas

I

De pimpo ganha fama um soldado
Que, em ouvindo o troar do canho,
Cai sem foras no cho desmaiado,
Se das tripas no faz corao.
Mas no campo, no ardor da peleja,
Capacita-se o grande poltro
Que, se morre o que mais esbraveja,
Tambm morre o que  menos pimpo... 
Isto di!
Isto di!
Faz-se  fora um grandssimo heri!

II

Sem que um tipo  vitria se arroje,
Acontece ficar vencedor;
Muitas vezes, pensando que foge,
Vai prodgios obrar de valor!
Deste modo um poltro, que no sente
Sem tremer um rufar de tambor,
Ganha reputao de valente
E vai postos galgando a vapor!
Isto di!
Isto di!
Faz-se  fora um grandssimo heri!

LUISINHA (Prestando ouvidos) Sargento no ouve?

GREGRIO - Nada!

LUISINHA (Indo  porta dos aposentos do governador.) - No me engano...

GREGRIO - Que ?

LUISINHA - Um falatrio...

GREGRIO - Sim, tem razo, agora ouo. No h que ver: seu noivo
entornou o caldo.

LUISINHA - Estou mais morta que viva! V ver o que foi, Sargento.

GREGRIO (Entreabrindo a porta e espreitando.) - No se engana a menina,
com mil raios! veja l... no fundo do corredor... ao p da escada...
formam-se grupos de oficiais... parecem todos inquietos. Que
aconteceria, com cem mil buchas?!

LUISINHA - Naturalmente deram pelo embuste. Matam-no com toda a certeza!

GREGRIO (Sempre espreitando.) -  ele... vem descendo a escada...

LUISINHA - Preso?

GREGRIO - No - livre; mas plido, desfeito... J me viu... Dirige-se
para este lado... Vamos saber tudo!...

LUISINHA - Sargento, parece-me que vou perder os sentidos.

GREGRIO - Irra! transfira o seu faniquito para amanh, com todos os
diabos!...

CENA III

OS MESMOS, VALENTIM, que entra amedrontado 

Tercetino e coplas

GREGRIO (Tomando-o pelo brao.)

- Que aconteceu?

LUISINHA (Tocando-o pelo outro brao.)

- Que sucedeu?

VALENTIM - Tudo perdido est!

LUISINHA - Meu Deus!

GREGRIO - Explique-se!

VALENTIM - V l!

I

Passei pelo corredor;
Entrei num grande salo;
E o nosso Governador,
Ao ver-me estendeu-me a mo; 
Dei-lhe as bandeiras
Que ao inimigo
Eu... Jorge, digo...
Ontem ganhou;
E ele, contente,
Cum forte abrao
Meu espinhao
Quase quebrou!

OS TRS

- E ele, contente,
Cum forte abrao
Meu/Seu espinhao
Quase quebrou!

II

Nisto, um velho militar
Entra tambm no salo,
E ao governador vai dar
Um papel que traz na mo...
Ergue-se em fria,
Todo irascvel,
Esse terrvel
Governador!
- Levar a breca
Na flor da idade
, na verdade,
Constristador!

OS TRS - Levar a breca, etc...

GREGRIO - Mas, afinal de contas, que dizia o tal papel? VALENTIM - No
sei, mas suponho que era uma denncia annima. O Governador abriu-o,
leu-o, amarrotou-o encolerizado, e, olhando fixamente para mim,
disse-me: - "Ordeno-lhe, senhor, que no saia do palcio sem minha
ordem."- Sim, senhor, respondi eu sem saber o que dizia nem de que
freguesia era.

LUISINHA - O Governador sabe de tudo! Meu pobre Valentim!

GREGRIO - Meu pobre Capito! Mas quem seria o patife que nos traiu? Se
eu soubesse! ai, que se eu o soubesse, com trinta mil raios que o
partam!...

VALENTIM - Vem gente... chegou a minha ltima hora.

GREGRIO - Vamos! calma... dignidade... Pense na farda que traz vestida.

VALENTIM - Isto no  uma farda:  uma camisa de onze varas. (O
Governador Matias de Albuquerque aparece a direita.)

CENA IV

OS MESMOS, MATIAS DE ALBUQUERQUE

O GOVERNADOR - Ah! est ali...

OS TRS ( parte.) - O Governador!...

GOVERNADOR (Falando para dentro.) - No quero que interrompais a
conversao que vou ter com o Major Braga. Durante esse tempo
diverti-vos; por enquanto no h motivo para tristezas... Danai um
minuete... (A Valentim.) Temos que conversar. (Vendo Gregrio e
Luisinha.) Que gente  esta?

GREGRIO (Com uma continncia.) - Sargento Gregrio, meu Governador.

VALENTIM (Imitando-o). - Sargento Gregrio, meu Governador.

GOVERNADOR - Conheo-te de nome... es um bom soldado.

GREGRIO -  favor.

VALENTIM -  favor.

GOVERNADOR - E esta menina?

VALENTIM - Esta menina ...  uma menina... minha cunhada, mulher de meu
irmo... que  latoeiro... no quis nunca separar-se de mim...

GOVERNADOR - Compreendo... no meio de tantos perigos...

VALENTIM ( parte.) - Est a zombar de mim.

GOVERNADOR - Sargento, manda transportar para aquele quarto a bagagem do
Major; entrars pela escada secreta que d para o quintal. AI
encontrars quem te encaminhe.

VALENTIM (Admirado.) - A minha bagagem!

GOVERNADOR (Tomando Valentim  parte.) - Sim, eu quero t-lo  mo.

VALENTIM ( parte.) - Ai!  mo!...

GOVERNADOR - Deixem-nos!

LUISINHA (A Valentim, desesperada.) - Deixar-te... numa ocasio
destas...

VALENTIM - Queira desculp-la, meu Governador...

GOVERNADOR - Esta apreenso  natural. (Indicando a pequena porta da
esquerda.) A menina pode dispor daquela alcova durante algumas horas.

VALENTIM (Baixo a Luisinha.) - Algumas horas, ouves? Parece que a coisa
no se demorar muito!

GOVERNADOR (A Valentim.) - A separao parecer-lhe- depois menos
penosa.

VALENTIM - A separao, ouves?

GREGRIO (Baixo a Valentim.) - Tenha coragem, com mil infernos! (Baixo a
Luisinha.) Venha!

LUISINHA - Que iro fazer-lhe, meu Deus!

VALENTIM - Adeus, Luisinha, adeus! (Abraa-a e beija-a s escondidas do
Governador. Gregrio separa-os e leva Luisinha; saem pela pequena porta
da esquerda.)

CENA V

VALENTIM, o GOVERNADOR

GOVERNADOR - Estamos ss... oua-me... 

VALENTIM (Esforando-se por se mostrar tranqilo.) - s ordens do meu
Governador.

GOVERNADOR - Recebi, em sua presena, uma comunicao que me encheu de
clera!

VALENTIM (Suplicante.) - Mas... 

GOVERNADOR - Passou, felizmente. Estou agora perfeitamente tranqilo.
Mas imagine que nesse papel me participavam que os holandeses atacaram a
povoao de Serinham!

VALENTIM - Hein? Como? ( parte.) E eu temia! Agora respiro! (Alto.) Com
que ento, os Senhores holandeses?

GOVERNADOR (Com mistrio.) - Ocuparam a povoao, apoderaram-se do
tenente-coronel Rodovalho, que comandava a guarnio ali destacada e
fuzilaram-no!

VALENTIM - Fuzilaram o Tenente-coronel Rodovalho? aquele excelente
Rodovalho?... ( parte.) Nunca o vi mais gordo...

GOVERNADOR (Com mpeto.) - Guerra! guerra sem trguas nem piedade!

VALENTIM (Procurando animar-se.) - Sem piedade! GOVERNADOR - Guerra
terrvel! O sangue pede sangue! VALENTIM - Pois demos-lho! (Pragueja
como no segun do ato.)

GOVERNADOR (Andando de um lado para o outro.) - Ah! corja de infiis!
assassinais cobardemente um homem que no vos poderia oferecer
resistncia? Pois bem! no vos enviaremos um parlamentrio que vos
obrigue a abaixar humildemente a cabea: enviar-vos-emos um terrvel
guerreiro, um heri que no conhece perigos nem hesitaes! (Parando em
frente de Valentim e pondo-lhe a mo no ombro.) Esse heri, ei-lo!

VALENTIM (Caindo numa cadeira.) - Ai!

GOVERNADOR (Sem dar ateno a Valentim e indo examinar o mapa geogrfico
que est sobre a mesa.) - Nada de piedade, Major, nada de comiserao! A
coragem, quase sobre-humana, que ontem mostrou, assegura-nos o sucesso
de nossas armas. No consulte o seu corao; consulte unicamente a sua
espada! (Valentim, sem poder falar, tem respondido por gestos a tudo
isto.)

VALENTIM ( parte.) - Eu estouro! Precisava sangrar-me!

GOVERNADOR - Partir daqui a trs horas.

VALENTIM (Balbuciando.) - Daqui a trs horas? (Ergue-se.) Mas, meu
Senhor, eu no estou preparado...

GOVERNADOR - Compreendo... Quer combinar comigo o plano de campanha. 
muito acertado! Reconheo nisso um bom militar. Aqui temos o mapa de
Pernambuco. (Vai sentar-se  mesa.) Sente-se diante de mim.

VALENTIM ( parte, aproximando uma cadeira...) - Antes uma dzia de
redutos! (Senta-se.)

GOVERNADOR - Marquemos os pontos estratgicos... pare... os holandeses
esto aqui... c est o ponto atacado. As nossas tropas esto divididas
em dois troos, um aqui, em Jaboato... outro no Recife. Que far o
Major?

VALENTIM (Depois de ter por muito tempo examinado a carta.) - Eu?

GOVERNADOR - Sim, vejamos...

VALENTIM - E Vossa senhoria?

GOVERNADOR (Com modstia.) - Eu ia por aqui... pelo Cabo... pois, como
sabe, aqui, por Nossa Senhora do , no h estrada que preste.

VALENTIM -  justamente a minha opinio.

GOVERNADOR - Mas se o inimigo se dividisse, e atacasse a vanguarda pelo
Rio Formoso, e a retaguarda pela Gameleira, como Vossa Merc salvaria o
centro?

VALENTIM - O centro? o centro? Vossa Senhoria compreende muito bem que o
centro  o que se deve salvar em primeiro lugar, porque o centro... sim,
que diabo! o centro...  to importante! ... O Governador naturalmente
tem l sua idia...

GOVERNADOR - Eu atravessaria o Rio Serinham e ocultava-me no mato.

VALENTIM - Pois eu, salvo melhor aviso... eu atravessaria o rio e
ocultava-me no mato aqui. (Aponta no mapa.)

GOVERNADOR - Mas  justamente o que eu acabo de dizer.

VALENTIM - Nesse caso, somos da mesma opinio... Eu julguei que Vossa
Senhoria preferisse...

GOVERNADOR - Qu? Vir por mar e entrar na Barra das Jangadas? Nunca!

VALENTIM - Nunca! nunca!  preciso atravessar o mato e ocultar-se no
rio... no! quero dizer... atravessar o rio e ocultar-se no mato.

GOVERNADOR (Erguendo-se.) - Muito bem, Major, estamos perfeitamente
entendidos...  preciso que em cinco ou seis dias se decida esta
campanha; os holandeses desejam internar-se, e convm frustrar-lhes os
planos. O Major vai arriscar os seus dias; mas os homens de sua tmpera
no fazem caso da vida.

VALENTIM (Encolhendo os ombros com ar de pouco caso.) - Oh!
(Arrependido.) Entretanto, confesso que esta comisso causa-me srios
transtornos... Depois da guerra, a gente pensa em descansar... Eu estou
com um casamento meio tratado...

GOVERNADOR - Que est dizendo? No tem o direito de recusar! ...

VALENTIM - Bom... se no tenho direito...

GOVERNADOR - E eu terei muito prazer em recomend-lo  proteo de
el-rei Dom Filipe III. (Sai pela direita.)

CENA VI

VALENTIM, depois PANTALEO

VALENTIM - Bonito! l vou eu para Serinham, um lugar onde fuzilam os
tenente-coronis! Que me faro eles a mim, que sou um simples major? Que
farei? Dizer que no quero? Fugir? Ento pagar tudo meu irmo! Estou
bem arranjado!

Coplas

I

Sou, por mal dos meus pecados 
Neste mundo perpetrados,

O mais bravo dos soldados 
E o beijinho dos heris! 
Eu no gosto de ver fardas, 
Tenho horror s espingardas! 
'Stou metido em calas pardas! 
'Stou metido em maus lenis!

Que destino traioeiro! 
Na batalha vai morrer
O funileiro
Menos guerreiro
Que pode haver!

II

Se uma bala vem perdida
Que em dous homens me divida,
Perco logo a bela vida -,
No a perde meu irmo!
Mas, se escapo (o que duvido)
Sem sequer ficar ferido,
Meu irmo  promovido
E eu no tenho promoo!

Que destino traioeiro, etc.

PANTALEO (Entrando.) - Andava a dar-lhe caa, senhor!

VALENTIM ( parte.) - Ai, ai! agora este! Era s o que me faltava!

PANTALEO - Segui-o desde Jaboato s para o provocar de novo. Agora
venho com teno diversa. Cedi s splicas e ao pranto de minha irm...
jurei que ferrava o pano... bem v: estou em calmaria podre... nem
sequer praguejo, com um milho de jacars! Aqui tem as suas cartas e o
seu retrato; faa o favor de restituir-me tambm as cartas de minha
irm.

VALENTIM (Balbuciando.) - As cartas... sim... quer as cartas, no 
isso?

PANTALEO -  preciso que no fique uma s em seu poder; entende?

VALENTIM - Entendo. Mas  que eu no as tenho comigo. PANTALEO - Com
seiscentos milhes de diabos! no espero nem mais um minuto! As cartas!

VALENTIM - Preciso ir busc-las... e no me do tempo para isso. Parto
para Serinham agora mesmo... No sabem que fuzilaram o Rodovalho? No
pude obter que transferissem a viagem... nem mesmo alegando eu negcios
de famlia... o meu casamento...

PANTALEO - O seu casamento?

VALENTIM ( parte.) - Escapuliu-me!

PANTALEO - Pois casa-se, e no  com Dona Guiomar Beltro de Arago?

VALENTIM - No h meio de conversar com este homem! E quem lhe disse que
no  com Dona Guiomar Beltro de Arago que me caso?

PANTALEO - Que ouo! Ser possvel?!

VALENTIM - J se v que  possvel.

PANTALEO - Bem! vejo que  honrado... como um marinheiro! Recusou uma
reparao  minha violncia... e agora vem conceder-me de motu proprio!
Bravo!

VALENTIM ( parte.) - De motu proprio, ladro!

PANTALEO - Mas dizia ento que lhe no foi possvel obter transferncia
da viagem?

VALENTIM - Debalde fiz eu que isto de ir a Serinham tanto podia ser
hoje como amanh; no me atenderam!

PANTALEO - Pois ho de atender-me a mim!

VALENTIM ( parte.) - Alcanar ele?

PANTALEO - Tive ocasio de prestar um dia um grande servio a Matias de
Albuquerque, e ele prometeu satisfazer o primeiro pedido que eu lhe
dirigisse.

VALENTIM - Pois pea-lho, pea-lho, meu bom cunhado!

PANTALEO (Tomando a mo de Valentim.) - Oh! essas palavras tornam-me
feliz, com mil diabos! Que alegria vai ter minha irm, que est aqui, no
palcio,  minha espera, l embaixo! Jorge, dou-lhe a minha palavra de
honra que no partir solteiro! (Sai apressado pela direita.)

CENA VII

VALENTIM, depois LUISINHA

VALENTIM - Uma transferncia! Estou salvo!

LUISINHA (Aparecendo com precauo.) - Ainda ests vivo?

VALENTIM - Creio que sim. O Governador no sabe de nada.

LUISINHA - Respiro.

VALENTIM - Mas, sabes? queriam mandar-me atacar, holandeses em
Serinham!

LUISINHA - Meu Deus!

VALENTIM - Mas j no vou; fico.

LUISINHA - Deveras?

VALENTIM - O pior  que o Arago Furaco voltou.

LUISINHA (Assustada.) - Voltou?!

VALENTIM - Enviado pelo cu. Ele  que faz com que eu no v para a
guerra.

LUISINHA - Como assim?

VALENTIM - Porque deseja a todo o transe casar-me com a irm, e eu...

LUISINHA - E tu?

VALENTIM - Prometi casar-me.

LUISINHA (Estupefata) - Prometeu casar-se! E ento eu?!

VALENTIM - No te aflijas... o principal era ganhar tempo. Que diabo! um
casamento nunca se faz assim do p pra mo... Eu levo a remanchar, a
remanchar... o Jorge volta, toma o seu lugar, ns regressamos s nossas
canecas e aos nossos funis, casamo-nos e...

LUISINHA - J lhe perdi as esperanas! Valentim; sers obrigado a casar
com essa mulher! (Chora.)

VALENTIM - Oh! no chores!

Dueto

VALENTIM 

- No te aflijas, que ainda espero
Nos ver felizes! 
Nos teus olhos ver no quero
Dois chafarizes! 
Um casrio no  cousa
Que assim se faa!

LUISINHA - No mais serei tua esposa! 

Oh! que desgraa. (Chora.)

VALENTIM - No chores, meu amor!

LUISINHA - 

Eu choro, sim, senhor!
Por que no descobre tudo?
Por que assim me sacrifica?

VALENTIM - Pois no sabes, minha rica,

Que...

LUISINHA - Que o qu, seu cabeudo?

Que...

VALENTIM - Pum! pum! pum!

Podem mandar-me fuzilar?!

LUISINHA - Pum!

Pum! pum!

Pois deix-lo  estar! (Chora.)

VALENTIM - No chores!

LUISINHA 

- Eu choro
'T mais no poder! 
Perdi meu tesouro!
No me posso conter!
Ai! ai! ai! 
Meu Valentim casar-se vai!

(Juntos.)

LUISINHA .....................................  VALENTIM

Eu choro, sim, choro, ---------- Suspende esse choro!

"T mais no poder -------------  Reviva o prazer!

Perdi meu tesouro! --------------  'St aqui teu tesouro!

No me posso conter! ----------  No te podes conter!

Ai! ai! ai! -------------------------- Ai! ai! ai!

Meu Valentim casar-se vai! --- Teu Valentim casar no vai!

CENA VIII

OS MESMOS, o GOVERNADOR, acompanhado por dois oficiais, a quem d ordens
em voz baixa.

GOVERNADOR - Major, o seu desejo vai ser satisfeito. Aprovo o seu
casamento com Dona Guiomar de Arago.

VALENTIM (Baixo a Luisinha, com alegria.) - Vs? No vou a Serinham!

GOVERNADOR - Mas, como no desejo que este casamento retarde a expedio
de que h pouco falamos, recebero a bno nupcial agora mesmo, ali, na
capela do palcio. J mandei prevenir a noiva e o meu capelo.

VALENTIM - Agora mesmo!

GOVERNADOR - Assistirei  cerimnia. S amanh partir para Serinham.

VALENTIM - Amanh...

GOVERNADOR (Dando um rolo de papel a Valentim.) - E aqui tem o meu
presente de noivado. A sua promoo a tenente-coronel; faltava-lhe esse
posto para substituir o infeliz Rodovalho.

VALENTIM (  parte.) - E morrer fuzilado!

GOVERNADOR (Aos oficiais.) - Acompanhem-me, senhores. (Sai pela direita,
acompanhado pelos oficiais.)

CENA IX

VALENTIM, LUISINHA, depois GREGRIO

VALENTIM - Casado!

LUISINHA - Casado! Ah! (Cai desmaiada numa cadeira.)

VALENTIM - Luisinha! Luisinha! Perdeu os sentidos! Volta a ti... Olha,
vou descobrir tudo! Ora adeus! sim, vou descobrir tudo, acontea O que
acontecer!

GREGRIO (Entrando agitado pela portinha da esquerda a Valentim.) -
Vamos! Depressa! Entrem! Trago uma grande notcia!

VALENTIM (A ver se Luisinha volta a si.) - Sargento, estamos perdidos!

GREGRIO - Estamos salvos!

VALENTIM - Hein?

GREGRIO -  preciso que o no vejam aqui. Entre, com mil raios!

VALENTIM - E Luisinha?

GREGRIO - Eu cuidarei dela. Mas entre! (Empurra-o para dentro e volta a
Luisinha.) Pobre pequena! que alegria h de ter quando souber!

CENA X

LUISINHA, desmaiada, GREGRIO, PANTALEO, depois JORGE, depois o
GOVERNADOR, a NOIVA, o CAPELO, oficiais, convidados

PANTALEO (Entrando encolerizado.) - Isto  demais! isto  demais! Vem
ou no vem este maldito Major Braga?

JORGE (Aparecendo pela portinha da esquerda com dignidade.) - Aqui
estou, meu querido cunhado, e pronto a acompanh-lo.

PANTALEAO - Venha depressa. O Governador espera-nos. (Correm os
reposteiros do fundo e v-se a capela, brilhantemente iluminada. O
Governador, os oficiais, os soldados e as damas formam grupos; Jorge
cumprimenta o governador, e vai buscar pela mo a irm de Pantaleo, que
est vestida de noiva. Durante o coro, o capelo celebra o casamento no
altar, ao fundo. Luisinha volta a si aos poucos, ajudada por Gregrio.
Olha em roda de si estupefata; depois v Jorge e tudo quanto se passa ao
fundo.)

Coro

Sejam virtuosos
Estes dois esposos;
Gozos e mais gozos
Lhes depare amor!
No seu lar contente
Vingue eternamente
Vivida e virente
Da alegria a flor!

LUISINHA (Desesperada enquanto continua a cerimnia.) - Meu Deus! que
vejo! Valentim! (Quer precipitar-se para o fundo; Gregrio impede-a.) 

VALENTIM (Aparecendo pela portinha da esquerda, vestido como no primeiro
ato.) - Enfim!

LUISINHA - Ah! (Lana-se nos braos dele.)

VALENTIM (Olhando para o fundo, onde se v Jorge, de costas, a
casar-se.) - O meu querido irmo l est! 

LUISINHA - Onde ele estava? Digam l!

GREGRIO -  longa histria, que depois

Ho de saber os dois!

OS TRS - Oh! que ventura! At pela manh

Desejara cantar o ratapl... 
Ratapl!
Ratapl!

CORO (A meia voz, na capela.)

- Sejam venturosos, etc.

(Jorge, a noiva, o capelo, o Governador e Pantaleo retiram-se pelo
fundo. Os demais personagens descem ao proscnio, entoando o ratapl.)

[(Cai o pano.)]
